loading…

FOCUSSOCIAL

Olga Mariano, romântica e realista

Não se pode cruzar os braços. Aqui ou noutro país é preciso continuar a trabalhar no sentido de abolir os preconceitos.

por Marta Vaz

Recorda com carinho a D. Mercedes, professora primária que lhe ensinou as letras e os números. A ela e à irmã, Idalina, que esperou por Olga três anos para que pudessem ir juntas para a escola. “O meu pai quis assim. Para nos apoiarmos uma à outra. Eu, a caçulinha da família, era um pouco preguiçosa, gostava de procrastinar. As contas de dividir, principalmente, davam-me sono. Mas, depois, fazia tudo”, explica Olga Mariano, 62 anos, nascida em Montemor-o-Novo e registada em Vila Franca de Xira. Recorda, ainda, o dia em que, com a prima, foi do Fogueteiro a Sesimbra no seu Fiat 1100, cinza, que o pai comprou a um alfaiate, por um lote de fazendas. Transação no valor de quarenta mil escudos, àquele tempo. Olga Mariano, ainda não tinha 18 anos quando começou a tirar a carta de condução. “Até hoje o carro é o meu confessionário. Lá dentro, choro, rio, rezo, falo. Tudo. É o meu veículo de liberdade, de vitória. Meu Deus! Sou eu e o carro, tantas vezes, sozinha, estrada fora, com os meus pensamentos. E isto tem grande significado para mim”, diz Olga Mariano, com toda a força que lhe vem da alma. Alma cigana. Profundamente cigana e encantadora.

"Fui uma criança muito feliz, tive uma juventude de sonho. Casei, aos 22 anos, quando quis e com quem quis. Tive um bom casamento e três filhos. Depois da morte do meu marido, a minha vida mudou muito". Voltou a pegar nos livros e no computador, onde faz os seus power point para dar formação. Tem CAP (Certificado de Aptidão Profissional), mas, mais importante, tem conhecimentos e o dom da palavra para os transmitir. Tem uma voz forte e segura como as mensagens que passa. Anda pelo mundo, de conferência em conferência, a defender aquilo em que acredita e a ouvir o que outros dizem sobre o seu povo, a maior minoria étnica da Europa: os ciganos.

A FOCUSSOCIAL ouviu-a. Serena, luto integral, há 18 anos, pela sua viuvez. Saia cumprida, lenço a emoldurar o rosto e a esconder o cabelo que nunca mais deixou crescer. Como manda a tradição cigana. E a sua vontade também.

Como é ser mulher cigana, em Portugal?

Não se pode cruzar os braços. Aqui ou noutro país é preciso continuar a trabalhar no sentido de abolir os preconceitos. De resto, é respeitando as nossas tradições, tentar ser e fazer o melhor possível, tanto na vida pessoal como na profissional. É nisso que acredito.

E no que mais acredita?

Acredito que as comunidades ciganas podem e devem participar nas políticas que visam a sua própria integração. Acredito que se pode ser cigano, fiel às raízes e cultura cigana e, profissionalmente, sermos o que quisermos e tivermos vocação para ser. Acredito na diversidade cultural, nos benefícios que pode trazer a uma sociedade, e acredito na individualidade e no valor de cada cidadão, independentemente da sua raça. Eu, antes de ser cigana, sou portuguesa. Nós, ciganos, temos ainda de trabalhar muito para que a mudança ocorra. Em parte, algumas coisas já mudaram, mas as mentalidades não mudam do dia para a noite.

Foi por isso que se tornou dirigente associativa, presidindo à Associação para o Desenvolvimento das Mulheres Ciganas Portuguesas (AMUCIP)?

Não foi só por isso, apesar desta crença me acompanhar desde a minha juventude. Sou uma das cinco fundadoras da AMUCIP por destino. Quando o meu marido faleceu, passei por uma situação muito ruim. Foram-se os anéis e ficaram os dedos, como se costuma dizer. Gastei tudo com a doença dele e, depois, após a sua morte, voltei para casa dos meus pais, como aconselha a nossa tradição. Em minha casa, cobri tudo com panos negros e fui para casa Dos pais, para me apoiarem e ajudarem. Tinha três filhos adolescentes. Eu e o meu marido vivíamos da venda ambulante. Tínhamos uma vida boa. Uma casa de doutor, como dizem os ciganos. Mas, infelizmente, a vida teve de continuar sem ele e eu, na altura, tive de me candidatar ao Rendimento Mínimo Garantido. Para isso, tive de aceitar as condições, que passavam por ter de fazer uma formação, caso fosse aceite. E fui. Chorei. Não sabia o que me esperava. Queria viver o meu luto em paz, mas o certo é que tinha de sustentar os meus filhos. Fiz a formação durante um ano. Tornei-me mediadora sóciocultural, fiz um curso no Centro de Estudos e Minorias Étnicas. Depois, eu e mais cinco mulheres ciganas criamos a AMUCIP. Foi assim que surgiu.

Quais são as atividades levadas a cabo na AMUCIP, desde a sua fundação, em 2000?

Temos vindo a desenvolver muitas atividades de mediação sóciocultural entre portugueses ciganos e não-ciganos. Atuamos, sobretudo, com mulheres e crianças. Gosto muito de estar com as crianças, de as apoiar nos seus trabalhos escolares. Mas a associação desenvolve o seu trabalho de mediação junto de serviços de saúde, na promoção de oportunidades de acesso à educação, formação profissional e trabalho. São muitas as vertentes onde atuamos. A capacitação e a informação, o combate à discriminação e ao preconceito. Também promovemos atividades lúdicas, quer desportivas, quer culturais. Temos feito parcerias muito importantes, com entidades que nos apoiam e, muitas delas, tiveram um papel decisivo na nossa continuidade como por exemplo, a Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, a Câmara Municipal do Seixal, o Alto Comissariado para a Imigração e o Diálogo Intercultural, a Pastoral dos Ciganos. Tenho um grande apreço pelo cónego Filipe de Figueiredo, pelo grande apoio que nos deu. Não posso deixar de mencionar a Direção Geral dos Assuntos Consulares, o Centro de Estudos para a Intervenção Social, a Fundação Montepio e, ainda, referir as candidaturas a projetos europeus, nomeadamente ao Equal e ao POPH, que resultaram na concretização de muitos projetos

Quais?

O “Pelo Sonho é que Vamos”, que tratou de melhorar a vida das crianças ciganas e não-ciganas e das suas famílias. Trabalhamos na melhoria das condições de vida, contribuindo para a conciliação da vida familiar, apoiando as crianças que vão à escola, em todas as suas tarefas escolares e não só. As que vão à escola de manhã, vem para cá no período da tarde e vice-versa. Creio que o nosso trabalho de educação e sensibilização deixará frutos, tanto nas crianças e jovens ciganas como nas suas famílias. Temos vindo a alertar e a colocar em prática a necessidade de uma escolaridade mínima obrigatória. Temos dado espaço às mulheres ciganas para que conciliem a sua vida pessoal e profissional, exercendo a sua cidadania sem que para isso tenham de se desviar da sua tradição e cultura. Outro projeto muito interessante foi o “Empreendedorismo no feminino”, que visava ajudar as mulheres ciganas a abrirem o seu próprio negócio. Agora, estamos com um outro que tem por objetivo abrir outras associações, como a AMUCIP, por todo o país. Já estamos em negociações com o Norte.

Na juventude, líamos principalmente os romances. Corín Tellado, por exemplo. Lembro-me de ter adorado “E o Amor Triunfou”.

E como se tornou mediadora municipal?

Foi há tês anos. Também fiz um curso e tenho formação contínua. Trabalho aqui na Câmara Municipal do Seixal cumprindo essa função. Faço pontes, ou melhor, ajudo a construi-las. Mais uma vez entre as comunidades ciganas e as não ciganas. Em muitas situações é fundamental que o trabalho de mediação aconteça, pois a cultura, a linguagem, são diferentes e, por isso, é necessário quem estabeleça ligações para que ambas as partes se entendam e a comunicação flua.

E, como formadora, que trabalho desenvolve?

Só o ano passado, dei mais de 200 horas de formação. Fui contratada pela Segurança Social e estive a dar formação em 15 distritos. Estive a informar e a sensibilizar os técnicos para a cultura cigana, para as diferentes especificidades da nossa cultura. Tenho um power point, feito por mim, com 160 slides. Para lhes explicar, mostrar como é e como funcionam certas coisas na nossa cultura, no nosso contexto cultural. Mas também recebo muita formação. Ainda em fevereiro estive em Estrasburgo, numa iniciativa do Conselho da Europa, num encontro onde estavam ciganos e responsáveis políticos envolvidos no processo de inclusão das comunidades ciganas a nível europeu. Sou formadora Romed, um programa europeu que define qual o espaço profissional do mediador e cria um código deontológico para a nossa ação. A nossa participação em iniciativas europeias em muito se deve à EAPN Portugal, pois somos chamados a ir, a marcar presença e a colaborar.

Olga Mariano

Trabalha na abolição do preconceito, faz mediação entre a minha e a sua cultura. Alguma vez se sentiu discriminada?

Sim. Senti. Mas raramente sinto. É o desconhecimento que gera o preconceito e muitas vezes está no olhar. Um simples olhar, em alguns momentos, diz tudo relativamente à atitude daquela pessoa. Aliás, sinto que houve um retrocesso. Quando eu era criança, o preconceito não era tanto como agora. Nós lutamos pela inserção mas creio que há mais uma espécie de assimilação. Compreende? Às vezes sinto que não há espaço para sermos como somos, mantendo o nosso modo de vida. O cigano, tradicionalmente, é um bom vendedor. E as feiras, onde estão? Estão em vias de extinção. E os empregos, a inserção profissional, onde está? Vamos a entrevistas e o lugar já está preenchido. Ainda há muito para fazer. Por isso, digo que quando era criança não sentia tanto preconceito.

Foi uma criança feliz?

Sim. Muito feliz. Quando recordo os tempos da escola, das brincadeiras no recreio, da ida a casa de outros meninos que não eram ciganos, só tenho motivo para sorrir. Naquela época, não era normal as meninas ciganas irem à escola e eu e os meus irmãos tivemos essa sorte. Em casa, nós, as meninas, apoiávamos a nossa mãe nas lides domésticas, mas todos tínhamos as tarefas muito bem definidas. À noite, quando os meus pais se iam deitar, eu e a minha irmã Idalina, partilhávamos o quarto e como não havia televisão ficávamos a ouvir telefonia ou a ler. Acendíamos um candeeiro a petróleo e líamos vários romances. Sempre gostei muito de ler.

E o que liam?

Muita coisa. Na juventude, líamos principalmente os romances. Corín Tellado, por exemplo. Lembro-me de ter adorado “E o Amor Triunfou”. Ou então, Carlos de Santander, que também era um escritor espanhol. Como lhe disse, fui uma criança feliz e tive uma juventude de sonho. Romântica e realista. Tirei a carta de condução estava para fazer 18 anos. Foi um momento muito importante na minha vida. Andava de carro para todo o lado. Era uma liberdade incrível. Metíamos o gira-discos dentro do carro e ouvíamos as músicas da época. Os Sheiks, um grupo do Paulo Carvalho, muito ouvido nos anos 60. Foi mesmo uma juventude de sonho, acredite.

Noto uma pontinha de saudade…

Tenho muitas saudades desse tempo. Do tempo que passei em Évora com as minhas tias paternas. Criamos laços familiares fortíssimos, maravilhosos. Como vivíamos no Seixal, o que mais queríamos era que os nossos pais nos deixassem ir passar uma temporada a Évora. Iamos ao cinema, divertiamo-nos muito. Também recordo com saudade, as feiras. Gostava muito de andar com os meus pais e irmãos pelas feiras. A Feira de São João, a Feira Nova, a Feira dos Ramos que era, agora, por esta altura. Os meus pais eram vendedores ambulantes mas, antes de casar, o meu pai era vendedor de gado.

Tudo o que sou, devo-o aos meus pais. Constituiram uma família muito bonita e unida. Souberam dar-nos educação e ensinaram-nos a viver dentro das nossas tradições, com equilíbrio.

É tradição casarem cedo. Com que idade casou?

Casei com 22 anos. Quando quis e com quem quis. O meu marido era afilhado de baptismo do meu pai. Mas eu gostei dele e casei por gostar.

Olga Mariano

Quais as tradições ciganas de que mais gosta?

Do casamento. Gosto muito do casamento cigano. Também se fazem casamentos mistos. Mas o casamento entre ciganos tem uma compreensão de todas as tradições de ambos os lados. Há um equilíbrio maior. Gosto, também, muito da importância que se dá à família, ao respeito que se tem pelos mais velhos. Os mais velhos têm um papel fundamental nas comunidades ciganas, porque estão cheios de sabedoria. O conselho deles é muito importante. E as crianças. Valorizamos muito as crianças. São a nossa alegria.

O que mudava na sua cultura?

O acesso ao ensino. Todos deviam ter acesso a estudar. Meninos e meninas. Parece-me fundamental para que tenhamos alternativas no futuro.

O que lhe diz o Dia Internacional do Cigano, assinalado a 8 de Abril?

Nada de especial. Não sei se quando tomaram essa decisão estava lá algum cigano.

Enviar por email