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FOCUSSOCIAL

Aprender a ser voluntário

Boa-vontade não chega. É preciso fazer bem.

por Paula Duque

Fotografia: Ana Vasconcelos

Tem um sorriso cheio de luz. Intenso e sereno. Acredita no que faz e faz voluntariado desde muito jovem. Confia que, através dele, o mundo pode mudar. Para melhor. Mas para isso é necessário «um novo e emergente paradigma sustentado no fazer bem».

Para além de mãe dedicada é formadora, docente, fundadora e presidente da Pista Mágica, escola de voluntariado.
Entre outros, tem em mãos o Projecto MoM (Mudar o Mundo) que visa promover a educação para a cidadania ativa e para o voluntariado com crianças. Escreveu livros e anda por aí a dar conferências sobre voluntariado.

Formada em Antropologia, trabalha desde sempre no sector não lucrativo, assumindo funções de liderança, coordenando equipas, concebido e implementado projetos sociais junto de populações desfavorecidas. Em Portugal, durante vários anos, atuou como coordenadora operativa da delegação norte dos Médicos do Mundo (MDM). No estrangeiro, os MDM confiaram-lhe a gestão de um projeto de saúde materno-infantil.

Na ONU, como voluntária, exerceu a função de conselheira e desenvolveu trabalho de observadora eleitoral da União Europeia. É uma mulher de ação. Humanitária. A sua missão já passou pelos Estados Unidos da América, Moçambique, Timor-Leste e Togo. Chama-se Sónia Fernandes. Tem 36 anos e acredita mesmo que o voluntariado pode mudar o mundo…

 

Como surgiu a ideia de criar uma escola de voluntariado?

Decorreu da prática de voluntariado durante vários anos. Senti muita falta de preparação para ir para o terreno. Em 2002 tive a oportunidade de usufruir de uma Bolsa, nos Estados Unidos da América, em Washington DC, na Points of Light Foundation e, aí, tive acesso a um mundo novo no que concerne à seriedade com que se encara o voluntariado. Durante esse tempo, tive formação e fiz voluntariado em três organizações com diferentes beneficiários. Posteriormente, continuei a exercer voluntariado e a liderar projetos que se transformaram em programas de voluntariado cada vez mais complexos. Em 2006, tive experiência de trabalho como voluntária da ONU, onde exerci funções de conselheira, durante aproximadamente um ano, num país em desenvolvimento. Já antes me encontrava a sonhar com o projeto da escola de voluntariado, isto é, a concebê-lo, a desenhar um plano de negócios  e um plano estratégico que, ao longo do tempo, fui amadurecendo. Posteriormente, convidei pessoas para se juntarem ao projeto.

O que se aprende na Pista Mágica?

Aprende-se aquilo que identificamos como as maiores necessidades de formação dos agentes do voluntariado portugueses e dos países em desenvolvimento. Atualmente temos cursos e workshops: os cursos de “Voluntariado Internacional”, “Gestão de Voluntariado” e o de “Iniciação ao Voluntariado”. Os workshops intitulam-se: “Como Constituir uma Associação”, “Planeamento Estratégico” e “Como Fazer um Projeto”. Prestamos mais serviços para além dos cursos como, por exemplo, deslocarmo-nos às instituições de ensino e outras, para fazermos conferências sobre o voluntariado, consultoria e auditoria em gestão de voluntariado. Os nossos associados têm alguns privilégios no que toca os nossos serviços. 

Há quantos anos existe a escola e qual a sua missão?

A associação foi criada em 22 de julho de 2008. A sua missão passa por construir competências para o exercício do voluntariado, resultando num efetivo instrumento da ação humanitária. Aspiramos criar as bases para que o voluntariado seja as mãos do combate às desigualdades, em Portugal e no mundo. Batalhamos por um mundo melhor e, para isso, é necessário possuir competências. Queremos mudar o caducado paradigma da solidariedade que sustenta os seus pilares na “boa-vontade” para um novo e emergente paradigma que se deve sustentar no “fazer-bem”.

Para além da formação, quais os projetos em curso?

Mais recentemente implementamos o Projecto MoM (Mudar o Mundo) que tem por slogan "Eu mudo o Mundo! Faço Voluntariado". O projeto visa promover a educação para a cidadania ativa e para o voluntariado infantil. O objetivo é criar nas crianças a naturalidade de levarem a cabo atividades de voluntariado que ajudem a melhorar o meio onde vivem, como por exemplo a sua escola, a sua rua, o seu bairro. Temos plena consciência da importância de fazer chegar esta mensagem que, não duvidamos, pode provocar uma mudança no mundo, através de uma atividade cívica tão aliciante como é o voluntariado. Não devemos esquecer que, para o fazer é necessária preparação. Foi no âmbito deste projeto que lançamos um livro, inédito em Portugal, dirigido especificamente para esta população, intitulado "Todos temos asas, mas apenas os voluntários sabem voar”.

Vontade de ajudar é suficiente para se ser voluntário?

A nossa escola surge precisamente da premissa de que para se ser voluntário é preciso mais do que boa vontade. Podemos ter um coração muito bondoso, mas se não soubermos como atuar não estamos a ajudar. Ser voluntário é ter um coração muito generoso e saber muito bem exercer a atividade de voluntariado a que nos propomos: seja dar alimento, na rua, a pessoas sem-abrigo ou limpar uma floresta ou a exercer medicina ou engenharia na qualidade de voluntário. Até mesmo para as atividades de voluntariado mais fáceis de executar é preciso ter formação e treino. Peguemos no exemplo de dar comida na rua. Existem uma série de conhecimentos que são necessários adquirir, como por exemplo conhecer a complexidade do fenómeno da condição de pessoa sem-abrigo, conhecer a organização com quem se colabora (Missão, Visão, Valores, as pessoas, etc), conhecer os procedimentos e regras de atuação do projeto onde se está inserido, saber exercer com qualidade a função que lhe é atribuída e que pode passar, por exemplo, por uma série de normas de higiene e segurança alimentar. Este é apenas um exemplo, apresentado de uma forma muito generalista. Se devemos proceder assim para funções tão simples, imagine-se como será para tarefas mais especializadas. Ser voluntário não é uma ocupação de tempos livres, em que se me apetece vou e se não tiver vontade, não vou! Ser voluntário é ser responsável, assíduo, respeitador do compromisso estabelecido com determinada organização e com os seus projetos e utilizadores. 

Fala-se de voluntariado remunerado e não remunerado. Qual a sua opinião sobre esta matéria?

Faço voluntariado há 20 anos e já experimentei muitos tipos de atividade e funções como voluntária, desde atividades indiferenciadas a atividades de perícia. Em determinadas circunstâncias sou a favor do voluntariado pago (a expressão mais assertiva será esta). Não se trata de uma remuneração, mas de um valor pecuniário que garante ao voluntário pagar as despesas básicas, dado que temporariamente se encontra a fazer um trabalho a tempo inteiro.  Apesar de o estar a fazer na condição de voluntário, vê-se privado de poder trabalhar e por isso de pagar as despesas mensais que continua a ter (alimentação, alojamento e encargos com pessoas a seu cargo). A este pagamento, podemos dar o nome de subsídio. 

Num país como o nosso, em que o conhecimento sobre a temática do voluntariado é, ainda, reduzida, sei que esta opinião provoca espanto e reprovação. Dou um exemplo para explicar o que disse atrás: os voluntários das Nações Unidas que deixam o seu trabalho e saem do seu país com encargos financeiros (como o empréstimo de uma casa ou o aluguer da casa onde vivem regularmente) e responsabilidades familiares (como pessoas a seu cargo, por exemplo idosas, crianças ou familiares com algum tipo de incapacidade). Já pensaram nestas situações?

Para além de garantir o pagamento desses custos fixos no país de origem do voluntário, o valor pecuniário do voluntário da ONU é também para pagar o aluguer de casa no terreno, para que se alimente e supra todas as outras necessidades básicas. Como podemos esperar que alguém que parte em missão por vários meses e até anos exerça as funções atribuídas sem qualquer tipo de pagamento? Esperamos muitas vezes dos voluntários muito mais do que o donativo do seu tempo e das suas competências. Esperamos também o donativo do dinheiro que garante a sua sobrevivência e a privação de uma vida pessoal e familiar. No entanto, isto não ocorre só a nível internacional, pode acontecer também a nível nacional. 

Qual o papel do voluntariado na sociedade?

O papel que eu entendo que o voluntariado deve ter é o de provocar uma mudança efetiva na sociedade. Os voluntários são as "mãos" das organizações sem fins lucrativos, que contribuem para o cumprimento da sua Missão. Obviamente quando não são preparados e formados para integrarem um grupo e projeto existente, quando não lhes são dadas competências e ferramentas para o trabalho que vão exercer, o resultado dessa atuação ficará muito aquém do que pode oferecer. Um voluntário preparado, formado e conhecedor do seu papel na organização poderá ser muito mais eficaz a provocar a mudança, para melhor, nos projetos que lhe forem confiados e, desta forma, na sociedade. Se todos os voluntários forem competentes a mudança terá um real impacto e será global.

Resumidamente, de que nos falam os seus três livros?

O "Temos temos asas, mas apenas os voluntários sabem voar" ilustrado pelo Pedro Serapicos, é inédito, em Portugal e é dirigido a todas as crianças do mundo e, até, aos adultos que transportam dentro de si a candura da infância. É dirigido a todos os que acreditam que podemos mudar o planeta para melhor, fazendo algo todos os dias e tornando-nos seres alados do voluntariado. A edição tem, também, como propósito servir de meio pedagógico para transmitir às crianças a paixão pelo voluntariado e a importância de uma cidadania ativa no âmbito do projeto Mudar o Mundo. 

"Diário de Maio Luz. Pensamentos em Missão" inclui extratos do meu diário pessoal onde está patente o percurso do voluntariado e a minha atividade como cooperante. Partilho os meus pensamentos mais profundos em contextos muitas vezes difíceis. Utilizei a escrita como uma forma de reflexão sobre as experiências de grande densidade emocional e humana e como ato terapêutico.

O primeiro livro que editei, "Sobreviver em Missão", apresenta de uma forma muito simples a forma como nos devemos preparar para todo o ciclo de Missão (antes, durante e depois). É, portanto, mais prático.

Como voluntária, qual foi a experiência mais marcante?

Tenho muitas, tanto em contexto nacional como internacional. "Diário de Maio Luz” relata as vividas lá fora, por isso, partilho uma experiência passada em Portugal. Era jovem e escuteira. O meu grupo decidiu fazer voluntariado numa instituição que acolhia crianças cujas famílias não tinham condições. Fizemos várias atividades durante vários meses. No final de cada dia eu regressava a casa com uma estranha sensação no peito. A necessidade de afeto que as crianças expressavam era tão grande que todo o tempo que passávamos com elas estavam literalmente penduradas nos nossos braços e ombros. Divertíamo-nos imenso, mas inicialmente a experiência de vazio que sentia quando chegava a casa invadia-me e tinha dificuldade em adormecer por estar consciente do seu sofrimento. Por esta experiência, mais tarde, aprendi o limite da minha atuação como voluntária. Não posso evitar as coisas difíceis que acontecem às pessoas. Aprendi que enquanto estava com elas poderia dar o meu máximo e era isso que se esperava de mim como voluntária. Com o tempo aprendi que o contributo de cada um pode parecer pequeno, limitado, mas pode mudar vidas de pessoas porque quem recebe essa entrega sabe que estamos a dar o melhor de nós - e isso muda vidas.  

O que ficou, de mais relevante, do Ano Europeu do Voluntariado?

Acreditamos que ajudou a tornar as consciências dos portugueses mais alerta para a importância do voluntariado e da necessidade de cada um ser ativo todos os dias no contributo para um mundo mais justo, mais solidário, mais equilibrado. Porque ser voluntário é uma postura, uma forma de estar na vida. Acreditamos que, à semelhança do Ano Internacional do Voluntariado, em 2001, um marco importante para que as pessoas ficassem mais atentas e disponíveis, 2011 contribuiu, certamente, para um voluntariado mais efetivo, com mais pessoas a praticá-lo.

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