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FOCUSSOCIAL

Um caso prático de intergeracionalidade e muito amor

Ivone e Mariana
A avó-senhora menina e a neta fotógrafa

por Marta Vaz

Fotografia: Mariana de Almeida

É uma história de cumplicidade entre avó e neta. Ivone, de 81 anos e Mariana, de 32. Entre as duas a comunicação sempre fluiu como água do rio. E os afetos criados vão para lá da relação de parentesco que as une. Amam-se e entendem-se por gestos, olhares, palavras e silêncios que estão muito para além do visível. Do que deve ser. Enquanto a avó fala, Mariana ouve como se fosse pela primeira vez. Cheia de admiração. Encantada, como é impossível não ficar, ao ouvir Ivone Russo Pereira.

Nasceu em La Rochelle (La Palisse) a 8 de março, de 1931, cidade portuária que havia de ser destruída durante a II Guerra Mundial, para onde a família tinha emigrado. Com quatro anos chega a Portugal, com os pais. Fica a viver em Ovar, de onde o seu pai é natural. Cresce por ali. Uma vida difícil de que guarda memórias vivas. Algumas muito felizes. Lembra-se, por exemplo, da mãe, senhora que falava muito bem francês, ter de sair muito cedo de casa, às vezes contra a chuva e o frio, com uma cesta à cabeça, para vender pão pelos arredores da vila. E por debaixo do pano branco da canastra, metia os folhetos anti-ditadura. Lembra-se das vezes que a sua mãe foi procurada pela polícia política e das provocações que, por rebeldia, fazia.

Alto e bom som, ía para a rua e dizia: eu amo os russos! E lá aparecia a PIDE para a levar, que aquilo, ao tempo, era ofensa maior à pátria. E dito, assim, à luz do dia, sem pudor, em praça pública, piorava bastante. Já na esquadra, a mãe de Ivone, defendia-se: “pois claro que amo os russos. Chamo-me Hermengarda Russo, sou filha de um Russo. Só posso amar os russos”!

Com o tempo e “em boa hora, a minha mãe, encontrou caminho”. Converteu-se. Foi a primeira mulher a frequentar a igreja evangélica de Ovar. E Ivone, em matéria religiosa, segue-lhe os passos. Tem uma fé férrea. Muito serena. Reza pela família, pelos vizinhos, pelo mundo.

E lembra-se muitíssimo bem dos seus documentos que nunca mais chegavam de França para que pudesse ingressar na escola portuguesa. Os anos passavam, Ivone crescia e as outras crianças, chamavam-lhe burra-velha. E, por isso, com a vergonha de ir à escola, já crescida, desistiu de estudar. Mas nunca de aprender. Ainda hoje, adora ler. E lê muito.

Lembra-se do dia em que o marido se apaixonou por ela e a acompanhou até casa, na sua bicicleta, enquanto ela caminhava ao lado da mãe. Claro que recorda, com saudade, o nascimento dos seus quatro filhos e lembra-se,  muito bem, dos anos em que trabalhou como fotógrafa na Foto Lisboa, de Estarreja.

Ivone é hoje uma senhora de feições muito bonitas. E mãos de pianista. Em jovem ganhou o título de Nossa Senhora de Paris - filme baseado no romance de Vitor Hugo - por ser parecida com a atriz Maureen O'Hara, que interpretou uma das mais sedutoras Esmeraldas do cinema.

Certo dia, Mariana pediu à avó para posar para ela. Era, então, estudante de Comunicação Audiovisual, vertente fotografia, e precisava fazer um trabalho. Pensou em fotografar a avó encarnando diversas personagens, fingindo sentir diversas emoções. E Ivone não colocou qualquer obstáculo à encenação. Fez de avó-música; avó-palhaço; avó-senhora mulher; avó-senhora menina e avó-medo. A Mariana registou tudo em fotografias que, depois, haveriam de dar lugar a uma exposição, em Aveiro.

 

A FOCUSSOCIAL conversou com Ivone e Mariana. A neta pouco falou. Optou por ficar do nosso lado, a fazer perguntas e, principalmente, a ouvir a avó Ivone, absolutamente enternecida.

Conta aquela história, avó, de como brincavas connosco ao teatro...

[E Ivone contou. Cheia de uma energia espantosa]

Ajudei os meus filhos no que pude. E gostava muito de ficar com os meus netos. Tenho seis. E mais dois bisnetos. Quando os meus netos eram pequenos eu fazia muitos teatros e passagens de modelos. Sempre gostei muito de brincar. Vestia-me com roupas mais antigas, punha um ou outro acessório e representava histórias. Fizeram-me rir muito e amo-os, também, por isso.

Como surgiu a fotografia na sua vida?

Por acaso. Comecei por trabalhar na casa de uma senhora rica, a tomar conta dos filhos dela. Contava-lhes histórias, brincava com eles. Tinha 12 anos. E ainda cheguei a aprender costura. Fiz muita roupa. Está ver este vestido que trago? Fui eu que o fiz. E para o trazer, ainda tive de lhe dar um pontinho, aqui na cinta, porque estou mais magra.

Então, a fotografia não era um sonho?

Não. Surgiu por acaso, aos 16. Mas gostei muito de tirar fotografias e de tudo o que aprendi. Fui trabalhar para uma loja, em Estarreja. Tirei muitas fotografias, fiz muitos álbuns e retratos. Fundo branco, fundo preto, perfil, orelhas. Naquele tempo, carregávamos o chaci no quarto escuro. Nos casamentos fazíamos fotografias de grupo, às vezes com 30, 40 pessoas num espaço fechado. Tinhamos de focar muito bem. Também fazíamos muitas fotografias dos noivos com as crianças que levavam as alinaças. Lidei com muitas pessoas. Era no tempo em que tudo demorava um pouco mais. Não é como agora. Agora é tudo muito rápido.

O sonho da minha avó era ser atriz, não era avó?

Sim. Sempre gostei muito da representação, do teatro e do cinema. Mas era difícil. Àquele tempo não era fácil uma mulher ser atriz. Mas, sabe, ía muito com a minha mãe ao cinema. Recordo-me de quando era criança e até adolescente, as pessoas pagavam à minha mãe para ela ir com elas ao cinema e traduzir as legendas. A minha mãe sabia muito bem francês e as pessoas pediam-lhe para ir. Eu ia com ela. Lembro-me, também, de até me chamarem Nossa Senhora de Paris, por causa de um filme dessa altura.

Isso é porque eras parecida com a atriz do filme, muito bonita…

Se calhar... diz Ivone, sorrindo e continuando conversa: mesmo os turistas franceses iam ter com a minha mãe, lá em Ovar, para que ela os orientasse. Ou para indicar onde dormir ou onde comer. Até mesmo para lhes dar conselhos de visitas a fazerem.A minha mãe sentiu muito a diferença de vida entre França e Portugal. Custou-lhe a adaptação.

Como são os seus dias?

Levanto-me, rezo, faço a minha higiene pessoal e tomo o pequeno-almoço. Arrumo a casa, cozinho para mim e para o marido. Depois, à tarde, faço uma pausa, não durmo mas descanso. Depois, ando por ali. Ainda costuro e gosto muito de flores, por isso, também faço jardinagem, lá no quintal. E também canto. Gosto muito de cantar e de dançar. Quando estou mais cansada, canto baixinho. E ainda hoje não me deito sem arrumar a cozinha.

Nota-se que gosta muito da sua casa…

Sim, vivo numa casa bonita, na Arrifana, entre a serra e o mar. Às vezes vejo o luar refletido no oceano. Costumo deitar-me cedo. Vejo pouca televisão, gosto muito de ir para a cama ler. Mas, sabe, agora o meu marido tem uma amiga…

Uma amiga?

Sim. Uma amante. A quem dá mais atenção do que a mim: a internet. [Risos] Não sai de lá. Anda sempre a ver coisas. Até os chás e depois vem dizer-me, toma este que faz bem a isto ou áquilo. E faz pesquisas para os netos. [Mariana, diz que sim, que quando precisam de alguma coisa, pedem-lhe auxílio e ele até diz que é o “chega-me isto”…]

Como se conheceram?

Lembro-me como se fosse hoje. Quando me viu apaixonou-se por mim e, um dia, acompanhou-me até casa, na sua bicicleta. Eu caminhava ao lado de minha mãe e ele ali. Apresentava-se todos os domingos, até casarmos. Aprendemos a amar um com o outro.

Conte-nos como foi fazer este trabalho com a Mariana?

Sabe, a Marianinha, tem muito jeito para fotografar. Quando me disse o que íamos fazer, gostei da ideia. Foi como se voltássemos a fazer as brincadeiras da infância. [Mariana intervém para dizer que foi uma experiência muito boa e que, mais uma vez, constatou o talento de atriz da avó]

Demorou quanto tempo?

Foram várias tardes. Ela ia dando as indicações. Pedia-me para fazer de palhaço, de menina, de senhora. Para fazer cara de medo ou de tristeza. E eu fazia. Quando era para ficar triste, lembrava-me de quando perdi o meu filho mais novo. É das coisas mais tristes que há no mundo, porque não é natural. Natural é os pais morrerem antes dos filhos. Mas foi assim. E eu e o marido tivemos de aceitar.

Mas não é fácil...

Eu tenho fé. Acreditar que isto é uma passagem, ajuda a serenar. Faço as minhas orações, canto os meus hinos. Já lhe disse que gosto de cantar. Quer que cante?

Claro...

Ivone cerrou os olhos e cantou. Uma voz melodiosa. Muito convicta de que aquela prece cantada, chega a algum lugar e é ouvida.

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