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FOCUSSOCIAL

Uma pausa com... Cristina Carvalho

Cristina Carvalho nasceu em Lisboa a 10 de Novembro de 1949. Durante a sua actividade profissional, contactou com milhares de pessoas e visitou inúmeros países, sendo a Escandinávia e o Oeste português as regiões que mais ama e que mais influência exercem sobre o seu imaginário e a sua personalidade enquanto transitório ser humano do sexo feminino, habitante do planeta Terra e, por acaso, escritora. Não por acaso, nesta sua actividade a que não chama profissional, é já autora de onze livros, com o presente, e outros seguirão. Até à data, tem publicados: Até já não é Adeus (1989); Momentos Misericordiosos (1992); Ana de Londres (1996); Estranhos Casos de Amor (2003); O Gato de Uppsala (2009, seleccionado para o Plano Nacional de Leitura); Nocturno: o Romance de Chopin (2009); Tarde Fantástica (2011), A Casa das Auroras (2011), Lusco-Fusco (2012), Rómulo de Carvalho/António Gedeão - Príncipe Perfeito (2012)

«Há qualquer coisa que ainda não percebi muito bem o que é, qualquer coisa que se passa em Lisboa, estou aqui há tantas horas a pensar na minha vida. O cão já correu dum lado para o outro vezes sem conta e agora descansa e dormita a meus pés, como tu gostas, Bé. Eu, numa linda imagem, costumada imagem, sentada no paredão com o cão a meus pés. Paz. Pés. Paz. Pés. Paz.

Não quero saber nem da Milu nem do coxo nem do amante nem da pobre da minha sogra dos saltos altos, nem do homem que é o seu marido, nem sequer quero saber do meu próprio marido! Vou partir para nunca mais ser vista. Posso caminhar eternamente por este passeio, caminhar pelo resto da minha vida, receber as gotas de água do mar, os salpicos da espuma destas ondas que batem incansavelmente neste paredão e num segundo se esvaziam, de volta nesse imenso regaço, nesse fundo de mistério que é o mar, que sou eu mesma. Hoje decidi que vou continuar a caminhar por aqui fora e a confundir -me com tudo o que for natural, com algumas aves, com esses fios de nuvens que percorrem todo o céu e lhe conferem um tom de certezas; vou confundir -me na pele de certos marinheiros, desses que gritaram e choraram e imploraram pela clemência divina e que não foram ouvidos, tal como eu, e aqui estou, ó povos deste mar, destas lonjuras tão próximas, aqui estou ó tempestades, ventos e desnortes que vos quero mais que a vida! É este o meu retrato, não o meu negativo mas a minha fotografi a: descalça no paredão, o cão que me acompanha rente aos joelhos, imperturbável e amigo, as línguas de fora, a minha e a dele, uma mais comprida que outra, e trotamos, trotamos não como cão e pessoa mas como qualquer outro animal que, no fundo, está aqui sempre presente.» 

Cristina Carvalho, Marginal, Editorial Planeta, 2013, pp.83-84

Sinopse

Uma mulher e um achado assombroso que revela instantâneos de uma juventude enterrada na rotina dos dias. Um passado vivido ao longo dessa emblemática estrada que liga a dourada sociedade da Linha de Cascais à cidade de Lisboa. Onde começa a margem e termina o «dever ser» para uma jovem portuguesa, nas décadas de 50 a 70 do século passado? Pode uma dúzia de imagens de um passado rebelde abalar a calma de um presente sem cor?

Uma vez mais, a voz literária de Cristina Carvalho arrasta-nos para um território humano que não se rende às conveniências, nem às evidências. Uma voz sempre aberta ao inesperado e que nos surpreende a cada história para a qual nos convida a entrar. 

 
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